11 de jun de 2012

O abismo que há entre pensar e sentir

"Você subverteu o que era um sentimento e assim
Fez dele razão pra se perder
No abismo que é pensar e sentir"

Marcelo Camelo


Ela estava matutando a muito tempo. Há dias pensava sem poder chegar a nenhuma conclusão. Faltavam dados pra poder avaliar como agir. Precisava saber da verdade. Conversara com alguns amigos. Pra alguns ela perguntou acerca da situação em que se encontrava - como agir, o que fazer? Com outros ela tentava saber mais, descobrir a verdade. Precisava saber da verdade. Mas o que é a verdade? Este conceito tão relativo, que se baseia em impressões pessoais e em sentidos sensoriais nem sempre plenamente confiáveis. Não era melhor ficar com a sua verdade? Pra que querer saber a opinião de quem não está na sua pele? Pra que ouvir comentários que nem sempre vão te agradar e conselhos que por certo não irás seguir? E mais que tudo, pra que ouvir o que o outro te diz com a aparente intenção de te precaver, mas com um velado prazer de ver que todos temos a nossa dose de desgraça?


O fato é que, como tantas outras vezes, razão e sentimento estavam em conflito. Como uma panela de pressão precisava falar pra não explodir. Ela previa que as coisas não iam acabar bem. Especialmente porque, como sempre, a emoção ia prevalecer. E a emoção é burra, seu pai não cansa de repetir, quando é que você vai aprender? Ela também queria saber... Como colocar em prática aquilo que já entendemos racionalmente? Como não se deixar tomar pela raiva? Como deixar de sofrer pelo futuro e viver o presente? Como aceitar com naturalidade e desapego tudo aquilo que não corresponde às expectativas? Como decrescer as expectativas? Como não transformar a decepção em agressão ou amargor? Como relativizar as perdas, as opiniões, as ofensas? São tantas perguntas que sempre se repetem. 


O melhor era mesmo um pó de pirlimpimpim, uma máquina do tempo, uma injeção de esquecil. O mundo é demais às vezes. É sufocante, ofusca a visão, oblitera o discernimento. E é tanto pra sentir e pensar que cansa. Se a gente carregasse tudo que vivemos enlouqueceríamos. Santo esquecimento das coisas intangíveis. É triste deixar tanta gente, sentimento e intenção pra trás. Mas é legítima defesa. Depois de um tempo ela entendeu que não era covardia ir deixando coisas pelo caminho. É necessário pra não deixar a vida em suspensão indefinida enquanto a gente espera pela verdade dos outros. E esperar, definitivamente, não é o seu forte.

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