1 de out de 2011

Viciada em Romance



Minha história não é nada demais. É muito comum até. Não me prostitui pra salvar meu filho doente ou ganhei um amante de uma amiga. Bom, a verdade é que eu sempre colecionei histórias de amor. Não apenas minhas, é claro. Tenho memória de elefante, como diz minha mãe, e guardo pequenos detalhes de histórias que povoam minha imaginação desde que me entendo por gente. Aos trezes anos senti meu coração palpitar por Romeu e Julieta vividos no cinema por Claire Daines e Leonardo Dicaprio. Por essa mesma época me encantei pela obra poética Marília de Dirceu e ficava sonhando com o romance entre o poeta quarentão Tomás Antônio Gonzaga e a adolescente Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, para quem além dos poemas escritos, conta a lenda que ele bordava o vestido de noiva com fios de ouro.  Guardei bem na memória a história de Luiz Carlos Prestes, o cavalheiro da esperança e da judia comunista Olga Benário, que mesmo grávida, o protegeu contra a morte ao se agarrar a ele no momento de sua prisão durante o governo Vargas. Sei de cor todas as histórias de amor da Inglaterra georgiana de Jane Austen e me deleito com as aventuras românticas das heroínas atuais como Carrie Bradshaw e Bridget Jones, que de modernas mesmo só tem a embalagem. Resumindo, como tantas outras meninas, desde sempre estou esperando viver o grande amor da minha vida.

Pra não dizer que só lembro-me de histórias fictícias ou de personagens históricos, digo que uma próxima a mim, sempre me impressionou muito. Meu avô era um homem corretíssimo. Nunca ouvi quem dele falasse mal. Pracinha na segunda guerra, pai e avô exemplar, foi fiel a minha avó até a morte desta, com quem teve seis filhos e esteve casado por mais de 40 anos. Porém, alguns anos passados em viuvez e um belo dia, ele comenta muito alegremente com um de seus filhos: tenho uma má e uma boa notícia. Meu tio pergunta: qual é a má notícia, pai? O marido da Júlia morreu. E qual a boa? Ele respondeu rindo: O marido da Júlia morreu. Júlia era a moça que ele namorou antes de ir pra guerra e com quem sua família não permitiu que ele se casasse por ser mulata. Ele esperou toda uma vida pra ficar com ela. Sempre achei linda esta história. Mas como tudo na vida, sempre há o lado B, menos bonito e divulgado, mas onipresente. Só pude compreender isso quando minha mãe me contou que havia encontrado uma carta de meu avô dirigida à sua namorada adolescente de data anterior ao seu casamento. O interessante é que a carta havia sido alterada por minha avó que riscou o nome da outra e colocou o seu no lugar. Acho que esta tentativa patética de encobrir a realidade demonstra como esse romance deve ter assombrado a sua vida. Todos devem ter sofrido muito: minha avó por saber não ser a eleita, dona Júlia e meu avô por não terem ficado juntos. A meu ver, sob essa nova perspectiva, a história não fica mais tão bonita assim. 
 
E no fundo sempre esperei ser a dona Júlia de alguém. Mas, é injusto eu querer ser o grande amor da vida de alguém se eu mesma já encontrei algumas vezes meu “grande amor”. Ano passado poderia jurar por três vezes, em três momentos distintos estar apaixonada por três caras diferentes. E toda essa idealização romântica é uma bobagem. Na verdade, o que vale mesmo é a vida real. Talvez meu avô fosse infeliz com dona Júlia. Mas ninguém pensa nisso, pois nos contos de fadas é óbvio que eles seriam felizes pra sempre. Acho que a maioria das pessoas, incluindo meu avô, sempre fica presa aquele famoso: “e se...”, essa tendência de vangloriar o passado e de idolatrar alguém que está inacessível. É muito mais fácil achar defeito em pessoas próximas, que convivem com a gente. Muitas vezes esses sonhos acabam se interpondo a realidade e nos impedem de aproveitar as verdadeiras benesses que a vida nos apresenta. Por um lado sei que precisamos dessa fantasia pra agüentar o fardo da realidade. Mas por outro, acho que o caminho da felicidade, na maioria das vezes, passa mais por saber diferenciar o que são expectativas plausíveis e reais do que o vislumbre de uma fantasia que, por mais reconfortante que seja, muitas vezes é tola.

Além de tudo, o mundo tem cerca de seis bilhões de indivíduos, é fato incontestável. Eu não posso acreditar que só exista uma pessoa certa pra cada um. Seria muito azar... E se ele morar na china? E se ele acabar morrendo? Não, definitivamente, eu acredito que há várias pessoas certas, pra momentos diferentes. Afinal, as pessoas mudam ao longo da vida. E mesmo um relacionamento que começou com todo o ardor também se modifica.  Recentemente li sobre uma pesquisa que demonstrava que alguns casais conseguiam se manter apaixonados por muitos anos. Suas reações ainda permaneciam como no início da maioria dos relacionamentos, mesmo após muitos anos de convivência. Porém, não conheço nenhum casal que se encaixa neste perfil. Tenho a impressão que ter tamanha sorte é como ganhar na mega-sena. É possível sim, mas estatisticamente as chances são mínimas. Entretanto, como diz o famoso ditado “quem não arrisca não petisca” e por isso vou apostar sempre, pois é preciso querer o melhor da vida e se relacionar amorosamente faz parte da experiência humana. Mas é plausível contar com o prêmio? Ninguém deixa de estudar ou trabalhar contando que ganhará milhões no jogo. Do mesmo modo, pretendo seguir meu caminho, acumulando saberes, amigos, prazeres, virtudes e me tornando o melhor que puder fazer de mim mesma. Se o meu caminho cruzar com pessoas especiais, como já aconteceu, e se a partir destes encontros eu tiver alguém pra me acompanhar por parte do percurso, ótimo. Se não, tudo bem, há outros tipos de afeto pra se colher no caminho. Sendo assim, pretendo cultivar a despretensão em minha vida. Até porque ganhar um presente inesperado é sempre muito melhor que aquele que já esperamos.

Mas o mundo não é feito só de seres obstinados em viver uma linda história de amor como eu. Isso sempre me intriga. Todo mundo tem o direito de fazer o que quiser da vida. Mas custo acreditar que alguém realmente não tenha desejo de se relacionar amorosamente. Talvez, seja porque enxergo tudo a partir do meu ponto de vista, que é obviamente muito limitado. Ainda sim acho que muitas vezes essa aparente escolha é uma derrota prévia, do tipo: Se já sei que vou perder, não vou nem brincar. Uma grande amiga minha, uma mulher fantástica, a quem sou muito grata por ter me apresentado aos escritores portugueses que tanto amo, Saramago e Pessoa, uma vez me explicou por que optou pela solidão. Segundo ela, quando estava só ficava muito bem, mas quando namorava se tornava tão carente que tudo era difícil. Inicialmente, não entendi muito bem, mas hoje, um pouco mais experiente acho que compreendo o que ela quis dizer. Também já experimentei essa sensação e fiquei a espera que o outro gostasse de mim mais do que eu mesma me gostava. Descobri do pior modo que essa é a receita pro fracasso de qualquer relacionamento. Acho que esse tipo de expectativa advém de uma auto-imagem ruim misturada com a idealização do amor romântico, aquela idéia furada de que todos são a metade de uma laranja (hoje tenho pena de quem se acha a metade de uma laranja. Porque da metade da laranja não se faz nada, mas com duas já dá até pra pensar numa laranjada. E se for limão melhor ainda, porque dá pra fazer uma caipirinha daquelas... ) Quando relembro minhas atitudes fico abismada: como pude fazer isso? Se nem eu conseguia gostar de mim como queria que ele gostasse? Mas, diferentemente de minha amiga, não pretendo me fechar pro mundo. Não quero me abandonar assim, desistir de tentar. Vou tentar melhorar sempre, amadurecer, ter autocrítica. Não aquela cruel e tirânica, mas uma que me permita enxergar meus erros, entendê-los, perdoá-los e principalmente que me permita não repeti-los. A questão não é evitar a vida pra deixar de sofrer. A questão é viver e me tornar apta a lidar com as inevitáveis desventuras que fazem parte dela.

Sendo assim, vou fazer aqui a mea culpa: Sou uma viciada em romance. Sempre romantizo meus relacionamentos, tento encaixar a pessoa numa forma em que ela não cabe. Depois fico com raiva de mim mesma por não ter enxergado a verdade. Fico frustrada pela relação não ter sido exatamente aquilo que eu queria ou concebia como ideal. E obviamente quanto maior a expectativa, maior é a queda. E sempre levo um tombo feio do cavalo. Tenho sérias dúvidas se não me auto-saboto querendo viver sempre no olho do furacão. Afinal, um romance de verdade tem que ter muita emoção. Não pode ser aquela coisa tediante da vida real. Ou seja, tenho dificuldades de lidar com a calmaria, com a rotina, com a realidade. Sempre acreditei nas máximas de Tom e Vinícius: “É impossível ser feliz sozinho...” e “Que todo grande amor, só é bem grande se for triste...”. Que triste pra mim, não é?  Aceitei coisas que não deveria, que apesar de não serem tão graves poderiam ter sido evitadas. A relação se torna o centro da minha vida, me torno uma refém dela. Começo a me anular, a esquecer de mim, das minhas prioridades, qualidades e sonhos. Estou sempre à disposição do outro. Fico paralisada esperando que ele volte, pensando onde ele está e no que está fazendo. E quando o Amarante grita no mp3 player “Eu sei, é um doce te amar/O amargo é querer-te pra mim/Do que eu preciso é lembrar, me ver/Antes de te ter e de ser teu/O que eu queria, o que eu fazia, o que mais?/Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?/Não sei mais...” faz todo o sentido pra mim, afinal, após cada romance, não sei bem mais quem sou. Passo só a me ver pelo outro e assim acabo me perdendo de mim. Não demora muito para tudo desabar. A carga de sofrimento que a relação passa a ter inviabiliza o seu prosseguimento. Sábia Hilda Hilst que escreveu no primeiro poema do “Cantares do sem nome e de partida”: Que este amor não me cegue nem me siga./E de mim mesma nunca se aperceba./Que me exclua do estar sendo perseguida/E do tormento/De só por ele me saber estar sendo.

É claro que o aprendizado na prática é muito mais efetivo. Não me arrependo de nada do que fiz. Hoje estou muito diferente do que era antes do meu último relacionamento. A Maíra de agora foi moldada por todas estas experiências e hoje já pode lidar melhor com algumas situações. Mas ainda acredito que se as coisas fossem diferentes, se eu não fosse viciada em romance, essas vivências poderiam ser menos dolorosas. Devo ter passado metade da minha existência ansiando por encontrar alguém. Se não estava com algum cara, estava na espera por estar, sabe? Mantinha-me em stand by. Aquela ânsia de que alguma coisa aconteça. Não gostar de alguém muitas vezes deixa um vazio, que você quer preencher a qualquer custo. E nesta busca desesperada, como no poema “Eros e Psique” de Fernando Pessoa, a gente acaba descobrindo que o príncipe tão ansiado acaba sendo você mesma, princesa adormecida, ignorante do fato de ser responsável pela própria vida.

Mas é chegada a hora da redenção: Tenho 26 anos, sou bem sucedida no que me propus a fazer, tenho amigos fabulosos e uma família fantástica, gosto de dançar, de arte, literatura, cinema e música. Quem foi que disse que eu TENHO que ter um homem ao meu lado para ser bem-sucedida, completa e feliz?  Muitas amigas, meninas maravilhosas e tão novas quanto eu, são assombradas pelo medo de ficarem sozinhas. Desconfio que isto seja muito mais comum do que se imagina e de que nós, “mulheres modernas” admitimos. Somos todas, em menor ou maior grau, viciadas em romance. Compramos essa idéia no desenho animado, nas músicas, nos filmes, novelas, livros e propagandas de margarina. Não estou dizendo que não há homens sofrendo do mesmo mal. Somos todos frutos desta sociedade imediata e de consumo. Além de termos todos que ser magros, ricos, inteligentes, lindos, politicamente corretos, ainda temos que ter um amor de cinema.

 É certo que as coisas estão mudando. Hoje as mulheres realmente são mais independentes e ocupam lugares na sociedade que eram impensáveis há um século. Mas acredito que algumas crenças e sonhos estão enraizados em nós. Obviamente há um fator cultural muito forte. Concordo em parte com a Simone de Beauvoir em sua famosa afirmação de que “Não nascemos mulheres: nós nos tornamos mulheres. Nenhum destino biológico, psíquico ou econômico consegue definir a figura que reveste no seio da sociedade a fêmea humana”.  É claro que somos produtos de nossa sociedade e de que nosso papel é, de alguma forma, pré-determinado. No contexto em que a filósofa escreveu isso a revolução sexual se iniciava. Fazia muito sentido. Mas dado que as coisas mudaram sim, mas nem tanto, e que a maioria das mulheres fundamentalmente ainda tem os mesmo sonhos, como casar com um homem lindo, rico e que nos ama e ter bebês fofinhos com ele, não permite negar outro fator primordial.  E aí é uma força maior atuando: a mão inexorável da natureza. Somos moldadas pra nos apegar emocionalmente. Criamos vínculos afetivos com muita facilidade. Por várias razões evolutivamente convenientes que não pretendo abordar aqui. E acima de tudo, somo conscientes de que temos um prazo pra procriar. Essa injustiça da natureza nos deixa em muita desvantagem. Mas não quero enlouquecer com isso. Pior que ficar solteira e sem filhos é ficar casada e ter filhos com uma pessoa que não é legal. Mais negócio é se cuidar pra estar pronta emocionalmente quando aparecer um cara que valha à pena, que goste de você e que tope esta empreitada. E se não rolar, a receita ainda é a mesma, o melhor continua sendo se cuidar pra fazer uma escolha acertada optando por não ter filhos ou se esse for realmente um grande sonho, realizá-lo de outra forma, adotando ou partindo pra produção independente.

Sartre não poderia ter sido mais sábio do que quando sentenciou: “O inferno é o outro”. Quando paro pra pensar em minhas angústias, frustrações e mágoas vejo que, praticamente em todas elas, havia alguém que não havia cumprido minhas expectativas. Mas ninguém está aqui pra cumprir minhas expectativas. E nem eu as de ninguém. Porém, deleguei muitas vezes esta tarefa aos outros. Eu sei que é impossível passar completamente incólume em relação às atitudes e opiniões alheias. Mas quero minimizar isso. O inferno só é o outro, porque eu permito que seja. Querer tanto um namorado, não era devido apenas ao prazer e expectativa da relação em si, mas da imagem que pretendia passar ao mundo. Quando estava sozinha, tinha a impressão de que o mundo inteiro estava amando, menos eu. Me via como a Bridget Jones naquela cena em que ela está acabada no sofá e fica imaginando toda Londres in Love. Não podia ver casais apaixonados sem me sentir mal. Achava que estava sendo vista como uma fracassada, porque na verdade eu me sentia uma fracassada. Estes sentimentos me fizeram namorar pelos motivos errados. Não quero mais namorar porque preciso de um namorado. Agora quero namorar porque estou tão bem que posso escolher alguém pra compartilhar minha felicidade. E alguém que valha a pena, que tenha afinidades comigo, que me respeite, valorize, que tenha carinho comigo e principalmente alguém que eu não precise, sob nenhum aspecto. Não precise pra me sentir bonita, desejada, aceita, inteligente e feliz. E muito menos pra pagar minhas contas... E se por acaso o eleito começar a bobear vai ser como diz a Céu em sua voz malemolente: “E tome tento/ Fique esperto/ Hoje não tem papo/ Jogo-lhe um quebrante / Num instante/ Você vira sapo/ Bobeou na crença/ Príncipe volta/ Ao seu posto/ De lenda...”.    

E por fim, pode parecer conselho de livro de auto-ajuda, mas me sinto na obrigação de contar ao mundo a mesma boa nova que meu pai, psicólogo perspicaz que é, proferiu pra mim em um dia negro de crise pós-término-de-namoro: “Minha filha, vou lhe dizer uma coisa que pode mudar sua vida. Você é a única pessoa responsável por sua felicidade”. Levou um tempo pra eu acreditar nisso. Mas hoje, sei que assim como nascer e morrer são atos solitários, a nossa história advém de nossas escolhas. Há sim coisas que são inevitáveis. O diferencial é a visão e a postura que se tem perante a elas. Quem escreveu a frase “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional” não estava errado. Assim como Sartre ao afirmar que “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Ou numa abordagem mais pop por Paulinho Moska: “Pode me enganar, me confundir, me atrapalhar/ Me invadir, me explorar, me explodir e me expulsar.../ Pode me trair, me abandonar, me repartir, me desdobrar e até fugir pra desistir e me matar.../ Sabe o que eu falso da minha vida?/Eu falso da minha vida o que eu quiser.” Então caro leitor, seja você homem ou mulher, novo ou velho, não se deixe contaminar por esse vício por romance, não acredite que ser feliz depende de outra pessoa. É muito tentador jogar tão grande responsabilidade nas mãos de outrem. Mas isso é ilusório. Depende só de você. Mesmo.

E eu espero só por hoje não tomar o primeiro gole. 

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