19 de set de 2011

Segunda parada: Yeah, it is Detroit rock city, baby!


Detroit é um nome que todo mundo conhece. Isso porque em sua época de ouro foi uma das maiores cidades do EUA. A indústria do automóvel trouxe pessoas e dinheiro pra cidade. Porem, quando contei pra um americano que viria pra cá ele não sem mostrou muito empolgado e me perguntou: não há outra opção? Porque não Chicago? Achei aquilo meio estranho e fui pesquisar na internet. Não achava nenhum elogio. Pelo contrário, achei uma brasileira se dizendo chocada com a situação da cidade e dizendo que assim como em New Orleans parecia que o Katrina tinha passado aqui.  A diferença é que nenhum furacão passou por aqui... Achei fotos também. Regiões abandonadas, pessoas vivendo nas ruas, prédios inteiros destruídos. Não sei se vocês se lembram, mas as histórias de Robocop e a Loucademia de polícia também se passavam aqui. Não sem razão: é uma das cidades mais violentas do EUA.  Além disso, é região fronteiriça com o Canadá, uma ponte liga Detroit ao país vizinho. A gente pode ver o Canadá através do rio e Toronto fica só a 370 km. É a região dos grandes lagos, tudo congelado na maior parte do ano.  Eu não gosto muito de frio... Dias cinzas me deprimem. Estamos no verão aqui. Quando eu cheguei tive a agradável surpresa de calor e dias ensolarados. Agora já chove e faz frio. O céu escuro, o sol não aparece. Provavelmente pelo que escutei falar será assim ao longo da minha estadia. Vou embora quando o tempo estiver melhorando.

Mesmo com tudo isso, acabei vindo. Minha escolha tinha relação com o meu projeto de pesquisa e não com a cidade em si. Não era uma escolha relativa às minhas preferencias pessoais e sim profissionais. No próximo texto pretendo abordar a Wayne State University, mas neste vou falar de Detroit. E como qualquer lugar, aqui tem coisas positivas e negativas. Como eu já vim esperando o pior acabei tendo surpresas agradáveis. Uma dessas coisas é a história da cidade. Tenho que enfatizar que a cidade transpira história.  Sua primeira colonização foi francesa e por isso seu nome tem origem na palavra francesa D’Etroit (o estreito – devido sua posição geográfica). Apesar de ter 310 anos, foi só nos idos do século XIX que Detroit começou a crescer, especialmente devido a seu porto. No século XX a indústria automobilística fez a cidade deslanchar. Em apenas um século houve uma expansão tremenda. A população era de 9100 habitantes em 1840 e 110 anos depois passou a 1800000 em sua época de ouro, a década de 1950. Um aumento de 20000%!!! Aqui é o berço da Ford e da indústria automobilística. A casa do Henry Ford hoje é um museu. As maiores empresas automobilísticas  estadunidenses ainda estão aqui: Ford, GM e Chrysler. Uma das primeiras coisas que ouvi ao chegar foi que a Woodward, uma avenida enorme que passa pelo meio da universidade, foi a primeira avenida no mundo a ser asfaltada e a ter semáforo.

Outra coisa que notei de cara, já no avião, é que a população afrodescendente é dominante na cidade. Eles são por volta de 85% da população. Curiosamente quando você vai pros arredores, nas pequenas cidades que constituem a grande Detroit, vemos muitos brancos. A explicação pra isso é que no início dos anos 70 a cidade foi atingida por uma forte crise devido ao crescimento das empresas automobilísticas japonesas e deste modo muitas pessoas ficaram desempregadas. Houve muitas manifestações violentas dos operários e assim a maior parte dos brancos acabou migrando para os subúrbios. Algumas destas pequenas cidades nos arredores de Detroit, como Royal Oak, são muito bonitas e possuem lugares bem interessantes pra sair.  Este processo do que podemos chamar de “segregação racial” ocorreu lentamente até os dias de hoje em que vemos a maioria negra. À medida que os brancos foram saindo foram levando o dinheiro consigo e empobrecendo a cidade. E como todos sabem a pobreza leva à? Violência. Bom, a questão é que tudo depende do referencial. É pobre pros padrões americanos. E com a relação à violência é a mesma coisa. Nem se compara ao Rio e São Paulo, eu acho.

Andando pelas ruas você pode ver que a cidade foi muito rica. A beleza da arquitetura por toda parte, não engana. As casas são super bonitas. Muitas delas têm plantas subindo pelas paredes, o que adoro, acho que dá um charme especial. Um prato cheio pros arquitetos de plantão. Muitas fábricas e prédios antigos viraram lofts. Um exemplo maravilhoso é o Sugar Hill, o prédio onde floresceu o jazz na cidade, e foi totalmente reformado pra dar lugar a moradias estudantis e estúdios de artistas (http://www.sugarhilldetroit.com/). Fiquei doida pra morar lá, mas infelizmente não tinha vaga. O que a gente mais vê em placas é lease (arrendamento). Muita coisa sendo vendida a preço de banana. Nem preciso dizer que é uma oportunidade de ouro pra quem quer investir. O custo de vida da cidade é baixo, menor do que de São Paulo (o que convenhamos, não é muito difícil). Museus pra todo lado e com obras caras, como quadros do Van Gogh. Provavelmente, herança da época das vacas gordas. Aliás, abrindo uns parênteses sobre museus, tenho que fazer uma lista e um cronograma pra visitação \o/ (Quem sabe faço um post sobre isso?). Há cassinos, uma ilha e monumentos. Prédios imensos de arquitetura arrojada. Uma coisa ruim é que muitas coisas acontecem nos arredores, coisa de 30 minutos da cidade. O porém é que pra tudo se precisa de um carro. O transporte público, como em muitas outras cidades americanas, é pífio. Mas não deixa de fazer sentido, uma vez que o capitalismo preconiza que todos devem ser capazes de adquirir bens de consumo como um carro. Só não é justo.

A cidade tem muitos imigrantes. Dentro da universidade vemos todo tipo de gente: mulçumanas com a cabeça coberta, indianos, chineses, coreanos, africanos. E agora entendo o que minha amiga Vivian quis me dizer numa das conversas que tivemos após a minha viagem ao velho mundo. Ao contrário dos europeus, os americanos são extremamente gentis (que me desculpem os ofendidos de plantão, eu sei que há exceção em todos os casos. Só estou falando da minha impressão). Aqui o povo nunca te viu mais gordo e é oi pra cá, bom dia pra lá e como vai você nesta manhã? O mais legal é que na maioria das vezes não é forçado. As pessoas são solícitas e te elogiam. Já falaram bem do meu tênis, do meu sotaque, dos meus óculos, dos meus vestidos, do meu coque, das bolsas e é claro, de mim. E vou dizer que são gracejos muito menos agressivos do que costumamos escutar no Brasil. Além disso, Detroit tem umas curiosidades engraçadíssimas. Os bueiros aqui são quase chaminés. Ninguém soube me explicar o porquê disso. Quero fazer um vídeo mostrando. Pelo menos, eles não explodem como no Rio. O número de loucos nas ruas é enorme. Parece que houve um programa de saúde pública para abrir as portas dos sanatórios e aí já viu. Tem nego falando sozim em tudo que é canto da cidade. Apesar de a cidade ser chamada de Motor City o principal veículo não é o carro tradicional, mas sim cadeiras de roda motorizadas.  Tudo bem, eu sei o que você está pensando, que o país inteiro anda nelas, já que agora os velhinhos e os obesos utilizam as mesmas. Mas não é só isso. Michigan foi um dos estados que mais mandou pessoas pra guerra.  Há muitos veteranos que perderam braços e pernas na guerra circulando por toda parte. Por causa do alto desemprego na região, muita gente foi mandada pro Vietnã e também pro Iraque. Aqui em Midtown, na região da Universidade, vemos muitas galerias de arte e gente desenhando em todo lugar, um pessoal bem estiloso com pinta de artista.


Tenho me sentido muita sortuda pelas pessoas que já conheci aqui. Logo na primeira semana encontrei vários brasileiros. Uma galerinha bem simpática de BH (Mariana, Michel, Carol e Lucas) que vieram da UFMG pra cá fazer intercâmbio. Os conheci por acaso no centro pra estudantes internacionais da universidade.  Estas coincidências da vida, né? A gente estar lá no mesmo momento, poderíamos nunca ter nos encontrado. E mineiro num tem jeito, é sempre gente boa. Assim que me despedi dos meus novos amigos brasileiros fui ao banco abrir uma conta. Lá escuto um rapaz falando português ao celular. Era o Felipe, estudante de business que está aqui há cinco anos. Veio para jogar tênis pela universidade. Nosso encontro foi bem interessante, pois fomos tomar um café e ele me falou bastante da cidade.  Além dele, devo citar Julia, gaúcha que faz pós-doc no lab da esposa do meu supervisor daqui.  Ela foi muito gentil em me receber em sua casa e é uma pessoa muito interessante. Já fez triátlon, morou em Londres e no Porto, conhece metade do mundo e tem uma mãe que é uma figura rara. Me divertia só de escutar dona Nará no Skype. Julia me apresentou seu amigo Carlos, médico de Fortaleza que mora aqui desde 2008 para fazer doutorado.  Ele é um amor de pessoa, gentilíssimo.  Por último conhecemos Maria e Willyan um casal muito querido do Paraná. Willyan é engenheiro químico e assim como eu está aqui pra fazer doutorado sanduíche.

Temos saído bastante juntos.  Fomos a muitos bares legais todos aqui na região. Tem o old Miami, o bronx, o lefty’s e o motor city brew. Em downtown tem o slows, o melhor restaurante até agora. Já descobri sessões de cinema alternativo no Detroit Institute of Arts nos fins de semana, aulas de yoga e shows vindouros do beirut, do Wilco e do cansei de ser sexy, está ultima banda brasileira que canta inglês. Vou tentar assistir a um espetáculo do Cirque du Soleil. E no dia-a-dia tem a agradável companhia da Ada, minha nova roommate americana que é um doce de pessoa. Ela já fez waffles pra mim e costurou meu casaco novo cujo botão soltou. Tem uma irmã que é uma piada e vive vindo aqui. A gente morre de rir com ela. Outra coisa boa são as compras. As lojas são enormes e tem coisa muito barata. A gente tem que se controlar pra não comprar tudo que vê pela frente! Neste último labor day em 05-09 (dia dos trabalhadores), o presidente Obama veio discursar aqui. Dada a importância da escolha da cidade pra tal evento acredito que este seja um forte indicativo de que há vontade de que Detroit volte a crescer. Fiquei esperançosa pela cidade. Espero ir embora já sentindo saudades. Já estou gostando daqui.

2 comentários:

  1. Maneiro, Maira! Tu jah viu um doc chamado Requiem for Detroit? Eh bem interessante. Conta um pouco da historia da riqueza e da decadencia da cidade. Eh da BBC.

    Bj

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  2. Oi Michel! Vou tentar baixar! obrigada pela dica ;)

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