30 de mai de 2011

Maternidade

Ela é bonita, espirituosa e está acostumada a ter tudo que quer. Filha de uma família classe média alta, se tornou única, após a morte do irmão mais novo. Teve o casamento dos sonhos, pôde escolher o vestido de princesa e o buffet mais caro. Já casou querendo um filho, não só ansiado por ela, mas pela família, diminuta. Após alguns meses tentando, engravida. Todo o núcleo familiar se reúne sobre ela e o bebê vindouro.  O quartinho da criança, o enxoval, a escolha do nome, o parto, tudo é cuidadosamente planejado. Durante a gravidez ela conversa com a própria barriga, ansiosa pela sua hora. Como é a moda atualmente, o pai acompanha o parto. O menino nasceu forte e bonito.  Ela sente que nasceu pra ser mãe. Os familiares estão exultantes. Ela e a criança têm todo o suporte emocional e financeiro. A maternidade é uma benção!

Ela tem os músculos rijos, uma voz forte, uma inteligência ímpar. Morena jambo, baixa e impetuosa. Menina de rua foi acolhida por uma família pobre, que não a tratou como filha, mas ajudou a ser alguém na vida, a estudar, ter comida e dignidade. Aos vinte anos, magoada pela não adoção daqueles com quem vivera os últimos anos, saiu da casa. Ela não tem família. Na verdade, os pais morreram de alcoolismo e insuficiência renal, e os muitos irmãos são um problema.  Ela até tentou ajuda-los, mas não há ajuda possível pra quem não quer ser ajudado. Foi melhor se afastar. Mudou de cidade. Conheceu um caminhoneiro. Engravidou, segundo ela mesma, por desejo próprio. O menino nasceu belo e perfeito. O casamento não dura muito. Quando o primeiro filho tinha quatro anos, engravida novamente. Porém, de gêmeos. Uma das crianças nasce com problemas renais. O pai dos bebês a abandona. Ela tem três filhos pequenos, dois empregos e nenhuma ajuda. Se arrepende amargamente de não ter abortado na última gravidez. A maternidade é uma benção?

Ela já passa dos 40 anos, é independente, bem-sucedida. Solteira, é muito apegada à família, aos pais, irmãos e sobrinhos. Tia dedicada, amorosa com os irmãos, o orgulho dos pais. Namorou um mesmo cara por muitos anos. Nunca se casaram. Nem pretenderam.  Não cabia na vida que levavam. Ela nunca teve muita certeza se tinha nascido pra ser mãe. Se isso caberia na sua vida. Se ela conseguiria abrir mão do conforto da sua vida, pra dividir seu tempo e dinheiro com outros seres que exigiriam muito sua atenção. Quando o relacionamento tão longo sucumbe ao tempo, o golpe é profundo. Por mais que nunca tenha admitido, talvez no fundo ela quisesse ter uma família. O tempo agora era um grande inimigo. Ela já se aproximava dos quarenta. Pra não entrar em desespero se afundou no trabalho. Neste meio tempo saiu com alguns caras, mas nenhum realmente interessante.  Agora as chances de que ela venha a ser mãe de uma criança gerada por ela mesma são praticamente nulas. Ela tem plena consciência disso. Mas que se há de fazer, ela pensa, neste mundo já há muita gente. Acabei fazendo um favor ao planeta... 

Um comentário:

  1. Exatamente isso! Cada uma tem uma realidade, um sonho, uma personanidade, um grau de desprendimento...
    Algumas mulheres serão mães felizes, algumas mães infelizes. Outras não serão mães e gostarão disso, outras lamentarão. É uma decisão para algumas, uma surpresa ou susto para outras. Ser mãe de uma criança não é igual a ser mãe de duas... as variaçoes são muitas e as experiências exclusivas, se jogar ou não é decisão ou oportunidade de cada uma.

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